Advérbio de negação
Palavra pertencente a uma subclasse dos advérbios que podem ser modificadores do grupo verbal ou de constituintes do grupo verbal. A tradição gramatical considera "não" o único advérbio de negação.
Em construções de negação frásica (i), a distribuição do advérbio é bastante restrita (ii). Neste caso, "não" ocorre sempre em posição de adjacência à esquerda do verbo, mesmo em construções interrogativas que envolvem inversão sujeito-verbo (iii).
Em construções de negação do grupo verbal, o advérbio pode modificar qualquer constituinte do grupo verbal. Neste caso, "não" encontra-se adjacente ao constituinte modificado, conforme (iv) a (vii).
Exemplos:
(i) O João [não] comprou flores à Ana.
(ii)
(a) *Não o João comprou flores à Ana.
(b) *O João comprou não flores à Ana.
(c) *O João comprou flores não à Ana.
(d) *O João comprou flores à Ana não.
(iii) O que [não] comprou o João à Ana?
(iv) O João [não comprou flores à Ana ontem]. <em>(modifica o predicado; ver nota 1.)</em>
(v) O João [[comprou à Ana ontem [não flores]], mas livros. <em>(modifica o complemento directo)</em>
(vI) O João [[comprou flores ontem [não à Ana]], mas à Raquel. <em>(modifica o complemento indirecto)</em>
(vii) O João [[comprou flores à Ana [não ontem], mas hoje. <em>(modifica outro modificador)</em>
1. Note-se que a frase (i) é ambígua, sendo que se pode ter uma interpretação de negação frásica, que altera a polaridade da frase, em contraste com (ii), ou de negação do predicado, em contraste com (iii).
Exemplo:
(i) O João não comprou flores à Ana.
(ii) VS. O João comprou flores à Ana.
(iii) O João não comprou flores à Ana, mas deu-lhe um beijo.
2. Em algumas variedades do Português, é possível distinguir a negação frásica da negação de constituinte pela realização lexical do advérbio de negação. Assim, em construções de negação frásica, "não" ocorre em variação livre com "na"/"nõ" (i). O mesmo não acontece com a negação de constituinte (ii)
Exemplo:
(i) (a) O João [não] comprou flores à Ana.
(b) O João ["na"] comprou flores à Ana.
(ii) (a) O João [[comprou à Ana ontem [não flores]], mas livros.
(a') *O João [[comprou à Ana ontem ["na" flores]], mas livros.
(b) O João [[comprou flores ontem [não à Ana]], mas à Raquel.
(b') *O João [[comprou flores ontem ["na" à Ana]], mas à Raquel.
(c) O João [[comprou flores à Ana [não ontem], mas hoje.
(c') O João [[comprou flores à Ana ["na" ontem], mas hoje.
3. O constituinte com a função sintáctica de sujeito pode ser afectado pela negação, se houver uma construção contrastiva antes do verbo (i) ou se o sujeito ocorrer em posição final de frase (ii).
Exemplo:
(i) Não o João, mas sim o Pedro, comprou flores à Ana.
(ii) Comprou flores à Ana não o João, mas sim o Pedro.



